Por que um corpo magro? Remédios mesmo sem obesidade?

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Será que um corpo magro (eu não disse saudável) deve ser a meta?

Um artigo recente trouxe uma reflexão interessante ao mencionar quatro possíveis benefícios que pessoas associam à magreza:

  1. Menos julgamentos;
  2. Maior legitimidade social;
  3. Alcançar um status social;
  4. Atingir a autoimagem desejada.

Ou seja, a magreza, e não necessariamente a saúde, parece ser o objetivo em muitos casos. E isso pode proporcionar ao indivíduo um caminho para benefícios sociais e emocionais significativos.

Vale reforçar um ponto importante: magreza e saúde não são sinônimos. Nem todo magro é saudável. E nem toda pessoa com sobrepeso está doente.

Na prática clínica, é comum que as pessoas confundam saúde com aparência corporal. Existe uma ideia culturalmente reforçada de que ser magro é automaticamente ser saudável — mas essa associação é simplista e muitas vezes equivocada.

Uma pessoa pode ter um corpo magro e ainda assim apresentar má alimentação, sedentarismo, distúrbios hormonais, deficiência de nutrientes, sono inadequado e alterações metabólicas relevantes. Da mesma forma, alguém com sobrepeso pode estar em processo de mudança, com bons hábitos e parâmetros laboratoriais equilibrados.

Por isso, quando falamos de emagrecimento, é fundamental diferenciar resultado estético de benefícios reais para a saúde.

O desejo por um corpo magro vai muito além da saúde. Ele está frequentemente ligado à busca por aceitação, reconhecimento e pertencimento.

O artigo citado sugere que a magreza pode funcionar como uma espécie de “passaporte social”, oferecendo ao indivíduo menos julgamentos e mais legitimidade perante o olhar do outro. Em outras palavras, o corpo magro pode ser visto como um símbolo de disciplina, autocontrole e até superioridade moral.

Esse fenômeno é extremamente relevante porque mostra como a pressão estética pode ser mais determinante do que qualquer argumento médico.

Quando alguém busca meu atendimento visando emagrecimento com saúde, o que vem à mente não é apenas um número na balança.

Penso em um conjunto de fatores que, juntos, constroem uma vida mais saudável e sustentável:

  • Um peso eutrófico, dentro de um intervalo adequado para aquele corpo;
  • Um relacionamento saudável com a comida (sempre reforço que comer emagrece);
  • Respeito e carinho pelo próprio corpo;
  • Aceitação dos limites individuais;
  • Prática regular de atividade física;
  • Alimentação balanceada e realista;
  • Qualidade do sono;
  • Manejo adequado do estresse;
  • Tratamento de comorbidades (como pressão alta, dislipidemia, correção de carências vitamínicas, etc.);
  • Rastreio de doenças relacionadas ao excesso de peso, como o acúmulo de gordura hepática.

Ou seja, o emagrecimento saudável é consequência de um cuidado mais amplo, e não de uma estratégia isolada.

Um ponto muito interessante é que, muitas vezes, os benefícios metabólicos começam antes mesmo da pessoa sair da faixa de IMC considerada obesidade.

Hoje já se discute amplamente que perder entre 5% e 10% do peso corporal pode trazer ganhos significativos para a saúde, mesmo que a pessoa ainda permaneça com sobrepeso.

Vamos usar um exemplo prático:

Imagine uma mulher com 80 kg e 1,60 m de altura. Seu IMC é 31, o que se enquadra em obesidade. Se essa mulher perde entre 4 e 8 kg, ela passa a pesar entre 72 e 76 kg, o que já representa uma melhora importante em diversos marcadores de saúde.

Mesmo que ela ainda esteja com sobrepeso (IMC aproximado de 28 se estiver com 72 kg), a meta de melhorar parâmetros metabólicos já foi alcançada.

Mas surge uma pergunta inevitável: será que ela alcançou os outros parâmetros que buscava, aqueles não necessariamente relacionados à saúde?

Fato é que todos nós temos em mente uma composição corporal estética que nos agrade. No meu ponto de vista, isso não é um problema em si.

Ter uma aparência que nos deixa satisfeitos pode contribuir para autoestima, bem-estar e até saúde mental, desde que exista equilíbrio.

No entanto, é importante refletir: quem define o corpo ideal?

Quando alguém repete frases como “seja sua melhor versão”, será que isso vem de uma busca genuína por saúde ou está profundamente influenciado por um contexto cultural, social e estético?

Essa pergunta é desconfortável, mas necessária.

Os remédios que contribuem para o emagrecimento foram originalmente desenvolvidos para o tratamento de obesidade e diabetes tipo 2.

No entanto, atualmente parece que esses medicamentos estão ultrapassando o campo clínico e entrando no campo do estilo de vida.

Através de celebridades que divulgam seu uso, indicações informais entre conhecidos, influência de redes sociais e até vendas online, essas medicações acabam se afastando do acompanhamento médico adequado.

Assim, começam a ser vistos como um caminho mais rápido para perda de peso e como uma forma de transmitir a mensagem de comprometimento, disciplina e adequação às normas sociais de “saúde”.

Para aqueles que não conseguem aderir a um plano alimentar estruturado e a um programa de treino intenso, o medicamento pode ser percebido como um possível atalho.

Aqui entra um ponto fundamental: esses medicamentos não foram estudados nesse contexto.

Eles foram avaliados e aprovados para uso em situações clínicas específicas, com indicação formal. Mas o que poderia acontecer quando passam a ser utilizados por pessoas sem obesidade, apenas com finalidade estética?

Quais efeitos deletérios podem surgir no médio e longo prazo?

Até o momento, a medicina não tem uma resposta completa para isso.

Optar por usar essas medicações fora das indicações significa, de certa forma, abrir mão da medicina convencional baseada em evidências e entrar em um território ainda não totalmente compreendido.

E quando se trata de saúde, entrar em territórios desconhecidos pode ter consequências importantes.

A grande questão não é apenas se o remédio emagrece — muitos deles emagrecem.

A pergunta real é: a que custo?

Se o objetivo principal for apenas atingir um padrão corporal socialmente valorizado, sem considerar riscos, efeitos colaterais e ausência de evidências robustas para esse tipo de uso, o preço pode ser alto.

A medicina deve ser usada como aliada para viver melhor, e não como ferramenta de adequação estética imposta pelo mundo.

Quando a saúde é o foco, o caminho pode ser mais lento, mas é mais seguro, mais sustentável e, no fim, mais coerente com o que realmente importa.

Referência científica

Scagliusi FB, Gualano B, Andreassen P, SturtzSreetharan C, Jensen SD, Brewis A. The Uncharted Territory of the New Obesity Drugs in Users Without Obesity: A Sociomedical Perspective. Obesity (Silver Spring). 2025 Nov 12. doi: 10.1002/oby.70069. Epub ahead of print. PMID: 41221797.

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